domingo, 3 de abril de 2011

Sistere

   Não era qualquer olhar, nem sequer um olhar importante. Aqueles olhos me atraiam, eles tinham uma história, eram olhos de saudade. Observava aquela cena como quem observa uma obra de arte, os detalhes, as mãos enrugadas seguram a face flácida não querendo mais ficar neste mundo, os cabelos meio ajeitados por pura vaidade,o pouco que ainda lhe resta, a roupa engomada parece-me que nunca foi tirada, com esforço consigo até mesmo sentir o odor, uma mistura de tempo e amor.
   Fui embora, voltei várias vezes e o olhar continuava ali, do mesmo jeito, vez ou outra as roupas se alteravam o cabelo ganhava um novo penteado, as unhas continuavam manchadas de esmalte, mas sua face nao mudava, e aquilo me intrigava. O que poderia ser, quem poderia ser, aonde olhavam aquelas pequenas esferas?
   Houve um dia que foi mais intenso, havia me seduzido, eu ali parado perdi a noção do tempo, estava eu e o olhar quase que frente a frente, eu já não ligava para mais nada, qualquer coisa seria banal perto da importância daquele brilho ofuscado, daquele momento preciso e foi assim nessa magia, nessa sedução que tudo se acabou, as mãos foram se desencaixando, o corpo tomando movimento, a face tornando-se mais fechada, mais intrigante, as mãos levemente arrumaram os cabelos e parecendo que estavam com frio, tocaram o vidro da janela fechando-a. Fechou-se tambem as cortinas.
   Acabou, escureceu, fechou. A partir daquele dia descia aquelas escadas de baixo de sol, de chuva e olhava aquele muro frio, uma cor de cimento somente com um unico detalhe, a janela de vidro com uma cortina salmão.
   Não era qualquer olhar, nem sequer um olhar importante, só sei que deles, agora eu me lembro em silêncio.

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