quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Camarote para quê, para quem?

Ontem tive o prazer de observar uma das cenas mais lindas que o acaso me permitiu. Trabalho no centro da cidade de São Paulo, e a caminho do metrô Sé, um pouco antes das escadas rolantes, em uma árvore bem baixa, com uma grama inexistente ao seu redor, somente uma terra que de tão seca é dura como o restante do concreto, abrigava oito pessoas, talvez moradores de rua,  e em sua copa um cobertor servia de proteção para a fina garoa que caía. Estava frio. Muito frio. Essas pessoas, todos homens, mal vestidos e mal cheirosos, todos embriagados com uma cachaça 51 que rodava de mão em mão e diminuía a cada gole que servia para esquentar o corpo (ou talvez a esperança), com seus objetos e a palma da mão, cantavam e batucavam um samba clássico da década de 90, numa empolgação e maestria de invejar percussionistas e simpatizantes. O carrinho de feira lotado de papelão e com um sujeito magro deitado sobre ele servia de reco-reco, as garrafas já vazias de corote de pinga eram raspadas no chão, batidas entre elas, existia um balde, chinelos presos entre as mãos e sendo batidos uns contra os outros, a panela suja com arroz queimado dava o agudo com o auxilio de uma colher batendo no seu fundo. Tudo ao redor desses moços e dentro daquela roda virava musica, feita com um gosto e vibração pulsante. O canto ecoava visível e penetrante para os transeuntes com seus guarda-chuvas pretos, bem vestidos e banhos tomados. Era lindo ver a alegria que emanava deles. Estava frio, eles sorriam. Não tinham nada, mas faziam. O dia cinza até então ganhava um brilho diferente para mim. A musica me arrepiou e não pude conter a emoção ao ponto dos olhos lacrimejarem. Fazia tempo que algo não batia forte assim. O Brasil não é nem de longe a imagem do "rei do camarote", o Brasil nesse momento se resumia ao samba na Praça da Sé.  Estava frio, muito frio e os moradores de rua aqueceram meu coração.