sábado, 9 de abril de 2011

Ausência Passageira

A solidão é presente
nos móveis vazios da sala,
na mesa da cozinha
envolta de migalhas e pingos de leite.
A solidão é presente
nos passos que vibram no chão
no passar das radios em busca
de uma melodia
que talvez me toque.
Ponho-me a procurar
algo que me preencha,
mas na solidão da casa
não encontro.
Saio para comprar cigarro
e involuntariamente na volta
subo as escadas
e adentro
em um ambiente fechado
(a palavra arde: condominio)
para engolir fumaça.
Ajeito-me na area de serviço
disputando espaço
com roupas que preenchem
o ar.
Acendo tres vezes até conseguir
tragar a fumaça quente
que percorre meu corpo
até que se esvai
juntando-se com a neblina
que bate em meu rosto.
Apoiado na grade que existe
vejo-me como os presidiarios
que veêm o tempo passar
presos em um predio velho
tentando alcançar a liberdade,
com o braço segurando o cigarro
para o lado de fora.
Apago-o e coloco o cinzeiro
em cima do espelho do banheiro
e olho-me fixamente.
Observo como os pêlos tomam conta
da minha face
como o cabelo cresce com o tempo,
A mancha que aumenta ao redor
dos olhos
que lacrimejam sem saber o por que.
Talvez fraqueza de noites mal
dormidas
talvez querendo se fechar
para o mundo,
para mim.
A solidão é presente
em todos os cantos da casa
que habita pequenos insetos
e formigas inquietantes,
que levam comida para dentro de pequenos buracos.
Pego uma na mão e observo
seu andar inquieto,
guardo-a no bolso
talvez assim preencha meu vazio.
Deito-me na cama
olhando o branco do teto
ouvindo ao fundo o chiado
do radio.
Me ajeito entre lençois
amarrotados,
me encolho
e me cubro para aquecer
meu corpo frio.
Fecho os olhos ja secos
que agora adentram na escuridão
total
de um leito
que me tira
da realidade existente.

terça-feira, 5 de abril de 2011

A Gota da Dor

Um rio de lágrimas concretas
Derrama pelo rosto sentimentos
Multiplicados, misturados
Saturados de sal e dor.

Nao aguento mais guardar
A dor.
Ela sai, ela pulsa
Arde
Perde-se dentre tantos momentos
Unicos

Uma lágrima, uma lembrança, uma dor e uma saudade

Escondo-me, tranco a porta
Limpo a lágrima, como se limpasse a vida
Limpasse o que se é.

A vergonha de se espor
De mostrar amor
De ser humano

Camadas concretas
Racham-se ao longo do tempo
Afroxam-se e mostram-se frágeis

Será o tempo?
Experiência?
Maturidade?
Sera simplesmente saudade?
Ou o acumulo...

A flor da pele os sentimentos transbordam
Saindo pelo suor
Perdendo-se no banho
Voando com os sonhos
Enraizando-se com os anos

O tempo passa
A experiência ensina, abre-nos os olhos
Para o que é relevante
A maturidade vem com o valor da saudade
De casa, da família, da mãe

As pessoas são mais que pessoas
Os animais ganham novos valores oníricos
O beijo ganha um som
O corpo pede um abraço
As mãos um afago
E o corpo, colo.

Infantilidade? Talvez saudade...
De um tempo perdido
De uma infância roubada
Adolescência adulterada
Uma vida cristalizada

Voltar já não é mais possível
Perdoar? Dificil é me
Perdoar.
Sofrer não muda o que já foi.

Apenas a imaginação de pensar como teria sido
Como poderia ser diferente.
Cada um tem seu tempo
Que aparece em silêncio...
E quando vemos já se foi
Não aproveitamos.

Serve como aprendizado do que?
Da vida?
O que é essa vida? Amar , sofrer, ceder,
Matéria, sentimentos, ciência, fé?
Que sabemos sobre
Vida e sobre tempo...

Sobre o certo e o errado, nada sabemos
Vivemos, experenciamos
Idéias, momentos
Pessoas

Sentimos no corpo
Na carne, na alma, nos olhos
Que expurgam essas dores e
Angústias
Rio abaixo
Que no fim, caem do rosto
E
Explodem
No





Chão.

domingo, 3 de abril de 2011

Sistere

   Não era qualquer olhar, nem sequer um olhar importante. Aqueles olhos me atraiam, eles tinham uma história, eram olhos de saudade. Observava aquela cena como quem observa uma obra de arte, os detalhes, as mãos enrugadas seguram a face flácida não querendo mais ficar neste mundo, os cabelos meio ajeitados por pura vaidade,o pouco que ainda lhe resta, a roupa engomada parece-me que nunca foi tirada, com esforço consigo até mesmo sentir o odor, uma mistura de tempo e amor.
   Fui embora, voltei várias vezes e o olhar continuava ali, do mesmo jeito, vez ou outra as roupas se alteravam o cabelo ganhava um novo penteado, as unhas continuavam manchadas de esmalte, mas sua face nao mudava, e aquilo me intrigava. O que poderia ser, quem poderia ser, aonde olhavam aquelas pequenas esferas?
   Houve um dia que foi mais intenso, havia me seduzido, eu ali parado perdi a noção do tempo, estava eu e o olhar quase que frente a frente, eu já não ligava para mais nada, qualquer coisa seria banal perto da importância daquele brilho ofuscado, daquele momento preciso e foi assim nessa magia, nessa sedução que tudo se acabou, as mãos foram se desencaixando, o corpo tomando movimento, a face tornando-se mais fechada, mais intrigante, as mãos levemente arrumaram os cabelos e parecendo que estavam com frio, tocaram o vidro da janela fechando-a. Fechou-se tambem as cortinas.
   Acabou, escureceu, fechou. A partir daquele dia descia aquelas escadas de baixo de sol, de chuva e olhava aquele muro frio, uma cor de cimento somente com um unico detalhe, a janela de vidro com uma cortina salmão.
   Não era qualquer olhar, nem sequer um olhar importante, só sei que deles, agora eu me lembro em silêncio.