segunda-feira, 19 de maio de 2014

Não sei escrever o barulho que sai quando respiramos

Chega sempre esses momentos de aflição.
Parecido com outras vezes, mas sempre a nova aflição é aquela mais forte.
Toda forma de aquietação é meramente falsa, camufla o determinante.
Somos determinados a angustias e aflições, determinados.
A diferença é viver com elas, ou chorar no banho em algum momento da vida.
Todo acumulo é ruim
Mas nem todo sofrimento é de se jogar fora
As pessoas que querem o dia a dia somente de sorrisos, essas me intrigam
Ou tão sábias ou covardes.
Tratar o próprio rosto no espelho, sem maquiagem.
Sorriso amarelo, coração inquieto
tum-tra
tum-tra
tum
tra
C.a.d.e.n.c.i.a.d.o.
C.a.n.s.a.c.i.a.d.o.
Para a vida em sociedade onde não se pode falar contra o ideal de felicidade
A poesia tem seu espaço de preenchimento.
O meu respirar reverbera dentro do meu corpo
pulsa, sinto, vejo a pele se movimentar levemente.
No olhar vago a procura do foco
Ouço dentro de mim o pulsar de meu vermelho
solto o ar dos meus cansaços.





sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pra fazer com que a vida não seja pequena.

    Estar educador é vestir uniforme, assinar ponto, cumprir deveres, bater o ponto e esquecer o trabalho.        Estar educador não faz parte, pelo menos não mais a mim, não mais a muitos e grandes educadores que conheço. Ser educador-mediador-propositor-provocador, vai além das ruínas e paredes do museu e espaço expositivo seja qual lugar for. Ser educador é estar em um espaço onde não existe fronteiras, barreiras, impedimentos ou limitações, esse lugar é o mundo em que vivemos, e nessa hora você leitor deve estar dando risadas e falando o quanto este que lhes escreve é ingenuo. Mas terei que discordar, nessa parte, com sua colocação, pois ser educador é viver todas as horas do dia preocupado e buscando aquilo que não sabemos, e é por este buscar no escuro, com uma energia que está acima daquilo que conhecemos, que faz com que não enxerguemos as barreiras e afins, porém isso em nenhum momento faz com que caímos na ingenuidade. Ser educador é estar diante da realidade, por vezes cruel e difícil de querer encarar, mas com o diferencial de sempre manter em si a preocupação. E preocupar-se é tarefa de gente utópica, gente que idealiza, gente que quer lugares e pessoas melhores, gente que quer mudanças, mesmo que pequenas e diminutas mudanças. Eu sou um utópico, eu alimento essa minha tendencia a utopia da mesma maneira que alimento um olhar firme na realidade da educação brasileira. Eu quero mudanças naquilo que é meu trabalho, na área da educação, da troca, do conhecimento nas relações. Se estou satisfeito com meu trabalho, em como eu trabalho? De maneira alguma poderia dizer que sim. Por vezes a pergunta que faço é: Porque?...E geralmente o porque precede a uma frase, mas neste momento é somente ele e o ponto de interrogação: Porque?
   Encarar como um trabalho continuo, interminável e aberto a novas regras e maneiras. Quais seriam as regras? Existe cartilha, maneira correta, perguntas especificas, função, finalidade, qual seria o produto final, deve-se existir um resultado? Resultado é aquilo que existe quando se acaba uma coisa. E quando a coisa não acaba? Uma visita acaba, mas eu continuo enquanto educador, cada visita não é o resultado final, mas a constante busca e apreensão de coisas que não sei quais são neste trabalho. E jogo neste momento a pergunta para todos deste setor: O que é que você busca como educador? O que de fato você quer? E começo umas indagações que vão para o lado de que: se a preocupação é realmente o outro, ou é com este outro que você vai achar as suas respostas ainda desconhecidas. O "outro" é o seu foco de trabalho, ou o "outro" é a ponte para o que você quer? Talvez essas colocações causem olhares de reprovação à minha  pessoa, mas não creio ser egoísta em dizer que as vezes ou sempre, (quem saberá?) o educativo não resulte em mudanças significativas no outro, mas sim em nós. E isso não é desmerecer a profissão, mas atentar para um outro lado também significativo e talvez mais recorrente. Abordar o lado mais racional de que tudo não é só coisas bonitas, a teoria é boa enquanto palavras bonitas, mas lidar com o outro é estar diante de momentos de profunda feiura. Isso faz eu pensar que as vezes não sou um bom educador, perder encanto por atender grupos, achar que de fato algo na vida deles irá mudar... 
   Concordo que este tema é uma rosa com um caule bem espinhoso, mas não por isso devemos sempre podá-los, creio que exista sim as mudanças, mas as mudanças ocorrem quando se está totalmente focado em "praticar o educativo", se existe frestas do "pensar educativo" que iluminam muito mais a sua vontade, fica difícil as mudanças ocorrerem...pois pensar é estar diante de situações menos agradáveis do que gostaríamos, é estar em constante exercício de observação. A exposição, as visitas, os educadores, as instituições tornam-se objetos de pesquisa e não local propriamente de trabalho. Não que a pesquisa e a observação não seja parte do SER educador que falo desde o começo do texto. Vejo uma diversidade de educadores, cada um com seus vícios, cada um a sua maneira fazendo seu trabalho, cada um com um objetivo, cada um com seu cada qual. E começo a pensar aqui nas relações educador-grupo, não vou falar como um coletivo, vou falar agora da minha experiencia enquanto educador na minha ultima visita antes de escrever este texto: diante de tantas coisas que penso em autonomia do próprio grupo, quebra de pequenos protocolos que existem, improviso em lidar com o que eles falam, não consegui fazer nada a não ser tentar trazer estes adolescentes para aquilo que EU queria, mas o meu eu estava muito distante do que o EU deles queria. Quem ganha? há ganhador? Existe perdedor? Devo encarar como uma pequena batalha, um trabalho árduo? Cumprir minha função como estar educador, ou ser educador? Devo agradá-los, precisa disso? Porque também quero chocar, porque quero fazer eles pensarem, questionarem ainda mais? Porque quero fazer deste momento uma coisa que eles não querem que seja?
   Há aqui a questão: o que vai fazer com que eles saiam com uma boa experiencia daquilo que era a proposta desde o inicio? Fico pensando o quanto isso realmente importa para os alunos, sendo eu um educador que não lembro absolutamente nada de todas as minhas visitas escolares que fiz em exposições, tudo bem que era outro tempo, mas o que é muito vivo em minha memória é a adrenalina de um dia antes do passeio, o entrar no ônibus, escolher um lugar perto de pessoas que são seus melhores amigos e suas melhores paqueras (mesmo que a pessoa ainda não saiba nada), o descer do ônibus para a exposição,  (neste momento há um branco total na minha memória ) e o voltar para o ônibus em direção a escola. Existe uma remota lembrança ou outra da silhueta de alguém, de algum momento leve de risadas, de uma piada, de um gesto talvez...é quase como a lembrança daquele professor que você se lembra pela afeição ou reprovação, mas a matéria em si passou e é até hoje incompreendida. Estou colocando a minha história, e só posso através dela ter uma comparação com o que eu faço, com o que eu sou. A relação entre grupos e educadores pra mim se dá de uma maneira totalmente de descobertas, não estudo licenciatura (ainda), não me aprofundei em textolatria sobre educação (ainda), justamente por querer ter uma vivencia com o outro sem inconscientemente seguir aquilo que é dado pelos livros e que faz com que você já meio que busque as respostas ou encare tais reações normais devido ao que X autor caracteriza por Y comportamento. Mas o que eu quero no outro, que tipo de comportamento espero que tenham? O que eu enquanto dono dessa 1h30 de tempo quero fazer com essas pessoas? E porque ainda não faço? Falta de coragem por talvez errar, insegurança em justamente ser leigo em repertorio educacional...?
   Temos duvidas, tenho duvidas, muitas. Somos realmente preocupados? Debatemos muito, mas pouco fazemos, as vezes uma sensação que me dá é que há poucas mudanças perto daquilo tudo que pensamos e debatemos enquanto círculos de educadores de exposições. Mas é justamente por estes círculos de educadores não manterem seus vínculos expositivos que as coisas talvez fiquem mais nas mudanças individuais do que mudanças coletivas e expandidas para acontecerem de fato nas instituições e nas escolas a quem atendemos. As mudanças de educadores são sempre muito gratificantes, conhecer novos projetos, novas idéias, novas pessoas e maneiras de trabalhar, mas também há o lado ruim de fazer com que brasas ou se apaguem ou apenas mantenham-se na mesma, sem fazer com que o fogo comece a pegar, pois o vinculo se desfaz.  Há sempre os dois lados. Há sempre que manter o animo. No fundo o que fica são varias brasas diferentes a cada novo ciclo, colecionamos calores e inquietações. Por vezes compartilhamos este fogo a quem tenha frio e queira um pouco de calor.
   Por ser em sua maioria das vezes grupos instáveis, educadores andarilhos, inúmeras inquietações, vivencias sempre diferentes, emoções e lugares a quais sempre nos surpreendem que talvez faça com que as duvidas apareçam. O que é bom, pois nos faz sair da inercia, nos faz querer mais, nos faz querer saber onde pisamos, o que fazemos, o que iremos fazer.  Está ai talvez a grande beleza do educativo, ser maleável, ter uma coisa que em outros setores não existe: a liberdade. E não confundir liberdade com libertinagem. Sei de onde viemos, mas não sei pra onde vamos, o caminho sempre é desafiador. Não sei realmente o que me move pra querer ser educador, mas quero. Não sei exatamente o que eu faço e como eu faço, mas a relação com o outro me faz bem. Tenho a certeza de que essas duvidas, todas essas perguntas são apenas um começo daquilo que eu quero pra mim, daquilo que desejo alcançar. O que desejo, o que quero?...ainda não sei.
   Posso apenas, e sendo aqui bem prepotente, definir o educativo, como uma fala que ouvi de Mario Sergio Cortella, sobre a frase "A vida é muito curta para ser pequena" de Benjamin Disraeli: "...quando eu morrer eu preciso fazer falta, e isso não quer dizer ser famoso, eu preciso ser importante, e importar é quando alguém me leva pra dentro, ele me porta para dentro, ele me carrega. Eu quero ser importante e para ser importante eu preciso ter uma vida que não seja pequena e uma vida se torna pequena quando ela é uma vida apoiada em si mesma, fechada em si. Eu preciso trans-bordar, ir alem da minha borda, preciso me comunicar, preciso me juntar, preciso me repartir...e nessa hora, minha vida que é curta, eu desejo que não seja pequena.."
   Sejamos importantes, queremos ser importantes. E isso não é pouca coisa, e em toda coisa que é muito, há sempre aquilo que desconhecemos, há sempre lugar para as perguntas. Ser educador na vida, é fazer com que a vida não seja pequena.

   

sábado, 11 de janeiro de 2014

Sobre as palavras vermelhas

   
PARTE I
As pequenas memórias que pesam

Andava na rua, seu sapato era vermelho (destoava da paleta cinzenta da cidade, e era, mesmo que não sabendo, uma gota de cortar o tédio monocromático). Chutava pedrinhas, elas quicavam no asfalto da rua, uma, duas, três vezes (na cidade as lagoas endureceram). Uma pedra que chutou bateu no poste e voltou para perto de seu sapato. Colocou a pedra em frente aos seus olhos, viu que as pedras eram pequenos pedaços de memória da cidade, eram andarilhas, viajantes, sedentárias também.
   Foi então que colocou a pedra no bolso da calça, colocou uma, duas, três, sete... o bolso enchia-se de memória, encheu o bolso direito, depois o esquerdo, os bolsos traseiros, o bolso perto ao peito da camisa. Mas havia muitas pedras em sua caminhada que ele havia de pegar, e então esvaziou sua mochila e os papéis cheios de anotações tediosas voaram, as canetas rolaram, assim dando espaço para as novas memórias.
   Anoitecera e seu caminhar era lentíssimo, curvado, suado. Todos seus bolsos, mochila e duas sacolas plasticas achadas pelo caminho estavam cheias de pequenas pedras...memórias.
   Descia a Rua do Resquício (esse era o nome da rua onde morava) e era andar mais oito passos grandes que estava em frente ao seu prédio, de arquitetura antiga, de um amarelo já descascado, sujo, com janelas fechadas para a grande praça que havia em frente ( ele não entendia o porque das janelas fechadas se tinham aquela vista bonita da copa das arvores, suas folhas no chão...), ele morava na parte detrás do prédio, onde sua janela dava para um grande muro e uma pequena viela de paralelepípedos.
   Abriu a porta de entrada do prédio (demorou no total vinte e quatro passos para chegar devido ao peso de suas memórias), o rangido da porta trabalhada em ferro fez as pombas da calçada darem pequenos vôos, atravessou o corredor até chegar na escada toda em mármore (faziam anos que não limpavam-na) olhou para cima, respirou e começou a subir degrau por degrau os três andares, eram no total nove lances de escada. No primeiro andar como de costume deu um aceno de cabeça para a senhora gorda que deixava sua porta aberta e que gostava de ficar olhando a vida dos moradores ( ela tinha o costume também de falar e puxar papo, nunca obtinha respostas pois sempre respondia suas próprias perguntas). No segundo andar observou a planta que ficava em um vaso de barro, cheio de musgo no canto do corredor com a escada, notou que precisava de água e novos cuidados (a planta não era sua, mas tinha por ela um cuidado e zelo especial, como uma mãe a saber que o filho da outra não recebe tanto amor...). Subia os ultimos lances de escada chegando em seu andar, que encontrava-se bem escuro com uma lampada queimada e outra que piscava em um amarelo bem fraco. Deixou as sacolas no chão, procurou sua chave e depois de um pequeno esforço a já enferrujada fechadura se abriu. Empurrando a porta com os joelhos e o corpo, ia dando pequenos passos para dentro de seu úmido e penumbroso apartamento e de costas, com o pé empurrou a porta que lentamente, rangendo e com dificuldade fechou-se.
   Ao lado de sua porta de entrada depositou ali as sacolas, apoiou sua mochila e fez cair todas as pedras que encontravam-se em seus bolsos e até a quase imperceptível nuvem de poeira se esvair pelo ar insosso de sua moradia ele ficou ali, imóvel a observar todo esse monte de pequenas memorias rochosas. Atrás de seu corpo, a esquerda da porta de entrada, havia a suntuosa passagem para a cozinha, uma porta ovalada com um batente de mármore na cor cinza. Resolveu colocar água para ferver, sabia todos os seus passos até seguir o ritual diário...abria o armário de madeira (bege com buracos de treliça para ventilar), a jarra de ferro encontrava-se na primeira prateleira (a prateleira era encapada com jornal velho, que já estava amarelado), com a mão direita pega a jarra e com a mesma empurra a porta que bate ao mesmo tempo em que sua mão esquerda pega a caixa de fósforos que encontra-se no beiral da pia. O barulho e cheiro de gás é forte, uma chama alta surge e depois fica quase que camuflada de tão pequena e azul. A jarra já está sendo cheia pela torneira que desregulada da pressão faz alguns pingos molharem seus braços e os azulejos da parede (de cores azuis claras, contrastando com os cinzas de concreto que estão no lugar dos que um dia já passaram por ali). Tudo era feito no silencio, o único som era o fogo queimando e os sapatos vermelhos andando no chão de azulejos rosados adornados com desenhos de tramas verdes. Ele puxa uma cadeira de madeira para o seu lado, afasta o pano de prato sujo que estava em seu encosto e com a mão alcança o bule de ferro antigo no centro da mesa (fazendo o pano de crochê da mesa embolar todo), dentro dele, além de um universo de pequenos objetos inúteis, mas de grande utilidade quando necessárias, encontra-se seu maço de cigarros de filtro vermelho. Pega um e acende com o fósforo, e as fumaças do pequeno palito de madeira se apagando e do pequeno filtro de 4.700 substâncias queimando, sobem em direção ao teto. Traga pausadamente seu cigarro, solta vagarosamente a fumaça, ora pela boca, ora pelo nariz, sempre em grandes proporções (o ato de tragar era sempre acompanhado de uma nostalgia inquietante, que nunca ao certo sabe-se do quê...). Apoia seu cigarro no cinzeiro de plástico já derretido em algumas partes devido a ação de deixa-los ali, queimando enquanto se faz outras coisas...parte para seu quarto, saindo da cozinha, dando dois passos até chegar na sala, atravessa-a sem acender a luz e com a mão esquerda afasta a cortina de bolinhas de madeira que separa a sala do quarto. Segue direto para sua mesa de cabeceira, acende seu abajur preto de focal redondo e senta-se na cama (iluminado pelo foco de luz em sua direção começa outro ritual..), retira seus sapatos, o pé direito retira o esquerdo, o esquerdo retira o direito, empurra-os com os pés para debaixo de sua cama de mola, madeira maciça antiga e escura (talvez seja Mogno), que a cada sutil movimento, range, fazendo cortar o silencio sepulcral do ambiente. Abre de cima para baixo os botões de sua camisa, retira-a, e neste movimento uma pequena pedrinha que ficou no emaranhado dos tecidos de seu bolso cai no chão. Apanha-a e a coloca ao lado de seu abajur. Levanta em direção ao mancebo de madeira (mesma cor da cama) ao lado da porta (que ainda mostra um leve balançar em sua cortina), pendura sua camisa, e começa a desabotoar o cinto e o botão da calça e retira-os (com o cinto ainda preso na calça) e coloca-os em seu devido lugar ao lado da camisa. Percebe que há uma ausência em um dos ganchos do mancebo e vê que sua toalha havia caído no chão (por um instante assustou-se com a idéia de terem entrado em seu lar... besteira, há sempre esses movimentos involuntários dos objetos). Vira-se para olhar a pequena pedra-memória na cabeceira e pensa que há silêncios que gritam em acontecimentos sutis.Volta em direção a cozinha, nos fundos é que encontra-se o banheiro. A jarra de ferro já começa a ferver. O cigarro já queimou por inteiro e também mais uma parte do cinzeiro.

(continua...)