sábado, 28 de novembro de 2015

Um lembrete da poesia

Faz tempo que você não vem me visitar- disseram-me as palavras-
Afastou suas mãos do teclado, esqueceu no canto a caneta Bic, os papeis pautados...
Deixou podado as rasuras de pensamento, as linhas entrecruzadas, as setas de entendimento de um texto mal começado.
Como pode você não ter encontrado outro meio de dizer as coisas, e mesmo assim não ter regressado para nós..?
somos em vinte e seis, que tecemos mais de seis mil novecentos e doze idiomas e você não quis ganhar dez minutos do seu dia conosco?
Ah meu jovem, quanto tempo ficou com os ranços de um velho...tolhendo seu intimo.
Não queira dar as desculpas daqueles que não tem clareza...
a vida é tão límpida. tão explicita
mas diante de olhos foscos, nuvens carregadas, empecilhos - causam aquilo que, você sabe,
seu amigo já dissera e você não entendeu: há uma pedra no meio do caminho.
Meio do caminho. Caminho aos meios, foi até a metade, só caminhou no escuro
E não chegou a ver a beleza de não se ver nada.
Há na sua frente, nós.
Fazia tempo que não nos fazia uma visita.
O eterno retorno.
Retornando inteiro, meio lotado de tantos novos caminhos
a escrever novos rumos.
Na pena, que hoje é a carga
deixe de lado
O que não vale.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Não sei escrever o barulho que sai quando respiramos

Chega sempre esses momentos de aflição.
Parecido com outras vezes, mas sempre a nova aflição é aquela mais forte.
Toda forma de aquietação é meramente falsa, camufla o determinante.
Somos determinados a angustias e aflições, determinados.
A diferença é viver com elas, ou chorar no banho em algum momento da vida.
Todo acumulo é ruim
Mas nem todo sofrimento é de se jogar fora
As pessoas que querem o dia a dia somente de sorrisos, essas me intrigam
Ou tão sábias ou covardes.
Tratar o próprio rosto no espelho, sem maquiagem.
Sorriso amarelo, coração inquieto
tum-tra
tum-tra
tum
tra
C.a.d.e.n.c.i.a.d.o.
C.a.n.s.a.c.i.a.d.o.
Para a vida em sociedade onde não se pode falar contra o ideal de felicidade
A poesia tem seu espaço de preenchimento.
O meu respirar reverbera dentro do meu corpo
pulsa, sinto, vejo a pele se movimentar levemente.
No olhar vago a procura do foco
Ouço dentro de mim o pulsar de meu vermelho
solto o ar dos meus cansaços.





sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pra fazer com que a vida não seja pequena.

    Estar educador é vestir uniforme, assinar ponto, cumprir deveres, bater o ponto e esquecer o trabalho.        Estar educador não faz parte, pelo menos não mais a mim, não mais a muitos e grandes educadores que conheço. Ser educador-mediador-propositor-provocador, vai além das ruínas e paredes do museu e espaço expositivo seja qual lugar for. Ser educador é estar em um espaço onde não existe fronteiras, barreiras, impedimentos ou limitações, esse lugar é o mundo em que vivemos, e nessa hora você leitor deve estar dando risadas e falando o quanto este que lhes escreve é ingenuo. Mas terei que discordar, nessa parte, com sua colocação, pois ser educador é viver todas as horas do dia preocupado e buscando aquilo que não sabemos, e é por este buscar no escuro, com uma energia que está acima daquilo que conhecemos, que faz com que não enxerguemos as barreiras e afins, porém isso em nenhum momento faz com que caímos na ingenuidade. Ser educador é estar diante da realidade, por vezes cruel e difícil de querer encarar, mas com o diferencial de sempre manter em si a preocupação. E preocupar-se é tarefa de gente utópica, gente que idealiza, gente que quer lugares e pessoas melhores, gente que quer mudanças, mesmo que pequenas e diminutas mudanças. Eu sou um utópico, eu alimento essa minha tendencia a utopia da mesma maneira que alimento um olhar firme na realidade da educação brasileira. Eu quero mudanças naquilo que é meu trabalho, na área da educação, da troca, do conhecimento nas relações. Se estou satisfeito com meu trabalho, em como eu trabalho? De maneira alguma poderia dizer que sim. Por vezes a pergunta que faço é: Porque?...E geralmente o porque precede a uma frase, mas neste momento é somente ele e o ponto de interrogação: Porque?
   Encarar como um trabalho continuo, interminável e aberto a novas regras e maneiras. Quais seriam as regras? Existe cartilha, maneira correta, perguntas especificas, função, finalidade, qual seria o produto final, deve-se existir um resultado? Resultado é aquilo que existe quando se acaba uma coisa. E quando a coisa não acaba? Uma visita acaba, mas eu continuo enquanto educador, cada visita não é o resultado final, mas a constante busca e apreensão de coisas que não sei quais são neste trabalho. E jogo neste momento a pergunta para todos deste setor: O que é que você busca como educador? O que de fato você quer? E começo umas indagações que vão para o lado de que: se a preocupação é realmente o outro, ou é com este outro que você vai achar as suas respostas ainda desconhecidas. O "outro" é o seu foco de trabalho, ou o "outro" é a ponte para o que você quer? Talvez essas colocações causem olhares de reprovação à minha  pessoa, mas não creio ser egoísta em dizer que as vezes ou sempre, (quem saberá?) o educativo não resulte em mudanças significativas no outro, mas sim em nós. E isso não é desmerecer a profissão, mas atentar para um outro lado também significativo e talvez mais recorrente. Abordar o lado mais racional de que tudo não é só coisas bonitas, a teoria é boa enquanto palavras bonitas, mas lidar com o outro é estar diante de momentos de profunda feiura. Isso faz eu pensar que as vezes não sou um bom educador, perder encanto por atender grupos, achar que de fato algo na vida deles irá mudar... 
   Concordo que este tema é uma rosa com um caule bem espinhoso, mas não por isso devemos sempre podá-los, creio que exista sim as mudanças, mas as mudanças ocorrem quando se está totalmente focado em "praticar o educativo", se existe frestas do "pensar educativo" que iluminam muito mais a sua vontade, fica difícil as mudanças ocorrerem...pois pensar é estar diante de situações menos agradáveis do que gostaríamos, é estar em constante exercício de observação. A exposição, as visitas, os educadores, as instituições tornam-se objetos de pesquisa e não local propriamente de trabalho. Não que a pesquisa e a observação não seja parte do SER educador que falo desde o começo do texto. Vejo uma diversidade de educadores, cada um com seus vícios, cada um a sua maneira fazendo seu trabalho, cada um com um objetivo, cada um com seu cada qual. E começo a pensar aqui nas relações educador-grupo, não vou falar como um coletivo, vou falar agora da minha experiencia enquanto educador na minha ultima visita antes de escrever este texto: diante de tantas coisas que penso em autonomia do próprio grupo, quebra de pequenos protocolos que existem, improviso em lidar com o que eles falam, não consegui fazer nada a não ser tentar trazer estes adolescentes para aquilo que EU queria, mas o meu eu estava muito distante do que o EU deles queria. Quem ganha? há ganhador? Existe perdedor? Devo encarar como uma pequena batalha, um trabalho árduo? Cumprir minha função como estar educador, ou ser educador? Devo agradá-los, precisa disso? Porque também quero chocar, porque quero fazer eles pensarem, questionarem ainda mais? Porque quero fazer deste momento uma coisa que eles não querem que seja?
   Há aqui a questão: o que vai fazer com que eles saiam com uma boa experiencia daquilo que era a proposta desde o inicio? Fico pensando o quanto isso realmente importa para os alunos, sendo eu um educador que não lembro absolutamente nada de todas as minhas visitas escolares que fiz em exposições, tudo bem que era outro tempo, mas o que é muito vivo em minha memória é a adrenalina de um dia antes do passeio, o entrar no ônibus, escolher um lugar perto de pessoas que são seus melhores amigos e suas melhores paqueras (mesmo que a pessoa ainda não saiba nada), o descer do ônibus para a exposição,  (neste momento há um branco total na minha memória ) e o voltar para o ônibus em direção a escola. Existe uma remota lembrança ou outra da silhueta de alguém, de algum momento leve de risadas, de uma piada, de um gesto talvez...é quase como a lembrança daquele professor que você se lembra pela afeição ou reprovação, mas a matéria em si passou e é até hoje incompreendida. Estou colocando a minha história, e só posso através dela ter uma comparação com o que eu faço, com o que eu sou. A relação entre grupos e educadores pra mim se dá de uma maneira totalmente de descobertas, não estudo licenciatura (ainda), não me aprofundei em textolatria sobre educação (ainda), justamente por querer ter uma vivencia com o outro sem inconscientemente seguir aquilo que é dado pelos livros e que faz com que você já meio que busque as respostas ou encare tais reações normais devido ao que X autor caracteriza por Y comportamento. Mas o que eu quero no outro, que tipo de comportamento espero que tenham? O que eu enquanto dono dessa 1h30 de tempo quero fazer com essas pessoas? E porque ainda não faço? Falta de coragem por talvez errar, insegurança em justamente ser leigo em repertorio educacional...?
   Temos duvidas, tenho duvidas, muitas. Somos realmente preocupados? Debatemos muito, mas pouco fazemos, as vezes uma sensação que me dá é que há poucas mudanças perto daquilo tudo que pensamos e debatemos enquanto círculos de educadores de exposições. Mas é justamente por estes círculos de educadores não manterem seus vínculos expositivos que as coisas talvez fiquem mais nas mudanças individuais do que mudanças coletivas e expandidas para acontecerem de fato nas instituições e nas escolas a quem atendemos. As mudanças de educadores são sempre muito gratificantes, conhecer novos projetos, novas idéias, novas pessoas e maneiras de trabalhar, mas também há o lado ruim de fazer com que brasas ou se apaguem ou apenas mantenham-se na mesma, sem fazer com que o fogo comece a pegar, pois o vinculo se desfaz.  Há sempre os dois lados. Há sempre que manter o animo. No fundo o que fica são varias brasas diferentes a cada novo ciclo, colecionamos calores e inquietações. Por vezes compartilhamos este fogo a quem tenha frio e queira um pouco de calor.
   Por ser em sua maioria das vezes grupos instáveis, educadores andarilhos, inúmeras inquietações, vivencias sempre diferentes, emoções e lugares a quais sempre nos surpreendem que talvez faça com que as duvidas apareçam. O que é bom, pois nos faz sair da inercia, nos faz querer mais, nos faz querer saber onde pisamos, o que fazemos, o que iremos fazer.  Está ai talvez a grande beleza do educativo, ser maleável, ter uma coisa que em outros setores não existe: a liberdade. E não confundir liberdade com libertinagem. Sei de onde viemos, mas não sei pra onde vamos, o caminho sempre é desafiador. Não sei realmente o que me move pra querer ser educador, mas quero. Não sei exatamente o que eu faço e como eu faço, mas a relação com o outro me faz bem. Tenho a certeza de que essas duvidas, todas essas perguntas são apenas um começo daquilo que eu quero pra mim, daquilo que desejo alcançar. O que desejo, o que quero?...ainda não sei.
   Posso apenas, e sendo aqui bem prepotente, definir o educativo, como uma fala que ouvi de Mario Sergio Cortella, sobre a frase "A vida é muito curta para ser pequena" de Benjamin Disraeli: "...quando eu morrer eu preciso fazer falta, e isso não quer dizer ser famoso, eu preciso ser importante, e importar é quando alguém me leva pra dentro, ele me porta para dentro, ele me carrega. Eu quero ser importante e para ser importante eu preciso ter uma vida que não seja pequena e uma vida se torna pequena quando ela é uma vida apoiada em si mesma, fechada em si. Eu preciso trans-bordar, ir alem da minha borda, preciso me comunicar, preciso me juntar, preciso me repartir...e nessa hora, minha vida que é curta, eu desejo que não seja pequena.."
   Sejamos importantes, queremos ser importantes. E isso não é pouca coisa, e em toda coisa que é muito, há sempre aquilo que desconhecemos, há sempre lugar para as perguntas. Ser educador na vida, é fazer com que a vida não seja pequena.

   

sábado, 11 de janeiro de 2014

Sobre as palavras vermelhas

   
PARTE I
As pequenas memórias que pesam

Andava na rua, seu sapato era vermelho (destoava da paleta cinzenta da cidade, e era, mesmo que não sabendo, uma gota de cortar o tédio monocromático). Chutava pedrinhas, elas quicavam no asfalto da rua, uma, duas, três vezes (na cidade as lagoas endureceram). Uma pedra que chutou bateu no poste e voltou para perto de seu sapato. Colocou a pedra em frente aos seus olhos, viu que as pedras eram pequenos pedaços de memória da cidade, eram andarilhas, viajantes, sedentárias também.
   Foi então que colocou a pedra no bolso da calça, colocou uma, duas, três, sete... o bolso enchia-se de memória, encheu o bolso direito, depois o esquerdo, os bolsos traseiros, o bolso perto ao peito da camisa. Mas havia muitas pedras em sua caminhada que ele havia de pegar, e então esvaziou sua mochila e os papéis cheios de anotações tediosas voaram, as canetas rolaram, assim dando espaço para as novas memórias.
   Anoitecera e seu caminhar era lentíssimo, curvado, suado. Todos seus bolsos, mochila e duas sacolas plasticas achadas pelo caminho estavam cheias de pequenas pedras...memórias.
   Descia a Rua do Resquício (esse era o nome da rua onde morava) e era andar mais oito passos grandes que estava em frente ao seu prédio, de arquitetura antiga, de um amarelo já descascado, sujo, com janelas fechadas para a grande praça que havia em frente ( ele não entendia o porque das janelas fechadas se tinham aquela vista bonita da copa das arvores, suas folhas no chão...), ele morava na parte detrás do prédio, onde sua janela dava para um grande muro e uma pequena viela de paralelepípedos.
   Abriu a porta de entrada do prédio (demorou no total vinte e quatro passos para chegar devido ao peso de suas memórias), o rangido da porta trabalhada em ferro fez as pombas da calçada darem pequenos vôos, atravessou o corredor até chegar na escada toda em mármore (faziam anos que não limpavam-na) olhou para cima, respirou e começou a subir degrau por degrau os três andares, eram no total nove lances de escada. No primeiro andar como de costume deu um aceno de cabeça para a senhora gorda que deixava sua porta aberta e que gostava de ficar olhando a vida dos moradores ( ela tinha o costume também de falar e puxar papo, nunca obtinha respostas pois sempre respondia suas próprias perguntas). No segundo andar observou a planta que ficava em um vaso de barro, cheio de musgo no canto do corredor com a escada, notou que precisava de água e novos cuidados (a planta não era sua, mas tinha por ela um cuidado e zelo especial, como uma mãe a saber que o filho da outra não recebe tanto amor...). Subia os ultimos lances de escada chegando em seu andar, que encontrava-se bem escuro com uma lampada queimada e outra que piscava em um amarelo bem fraco. Deixou as sacolas no chão, procurou sua chave e depois de um pequeno esforço a já enferrujada fechadura se abriu. Empurrando a porta com os joelhos e o corpo, ia dando pequenos passos para dentro de seu úmido e penumbroso apartamento e de costas, com o pé empurrou a porta que lentamente, rangendo e com dificuldade fechou-se.
   Ao lado de sua porta de entrada depositou ali as sacolas, apoiou sua mochila e fez cair todas as pedras que encontravam-se em seus bolsos e até a quase imperceptível nuvem de poeira se esvair pelo ar insosso de sua moradia ele ficou ali, imóvel a observar todo esse monte de pequenas memorias rochosas. Atrás de seu corpo, a esquerda da porta de entrada, havia a suntuosa passagem para a cozinha, uma porta ovalada com um batente de mármore na cor cinza. Resolveu colocar água para ferver, sabia todos os seus passos até seguir o ritual diário...abria o armário de madeira (bege com buracos de treliça para ventilar), a jarra de ferro encontrava-se na primeira prateleira (a prateleira era encapada com jornal velho, que já estava amarelado), com a mão direita pega a jarra e com a mesma empurra a porta que bate ao mesmo tempo em que sua mão esquerda pega a caixa de fósforos que encontra-se no beiral da pia. O barulho e cheiro de gás é forte, uma chama alta surge e depois fica quase que camuflada de tão pequena e azul. A jarra já está sendo cheia pela torneira que desregulada da pressão faz alguns pingos molharem seus braços e os azulejos da parede (de cores azuis claras, contrastando com os cinzas de concreto que estão no lugar dos que um dia já passaram por ali). Tudo era feito no silencio, o único som era o fogo queimando e os sapatos vermelhos andando no chão de azulejos rosados adornados com desenhos de tramas verdes. Ele puxa uma cadeira de madeira para o seu lado, afasta o pano de prato sujo que estava em seu encosto e com a mão alcança o bule de ferro antigo no centro da mesa (fazendo o pano de crochê da mesa embolar todo), dentro dele, além de um universo de pequenos objetos inúteis, mas de grande utilidade quando necessárias, encontra-se seu maço de cigarros de filtro vermelho. Pega um e acende com o fósforo, e as fumaças do pequeno palito de madeira se apagando e do pequeno filtro de 4.700 substâncias queimando, sobem em direção ao teto. Traga pausadamente seu cigarro, solta vagarosamente a fumaça, ora pela boca, ora pelo nariz, sempre em grandes proporções (o ato de tragar era sempre acompanhado de uma nostalgia inquietante, que nunca ao certo sabe-se do quê...). Apoia seu cigarro no cinzeiro de plástico já derretido em algumas partes devido a ação de deixa-los ali, queimando enquanto se faz outras coisas...parte para seu quarto, saindo da cozinha, dando dois passos até chegar na sala, atravessa-a sem acender a luz e com a mão esquerda afasta a cortina de bolinhas de madeira que separa a sala do quarto. Segue direto para sua mesa de cabeceira, acende seu abajur preto de focal redondo e senta-se na cama (iluminado pelo foco de luz em sua direção começa outro ritual..), retira seus sapatos, o pé direito retira o esquerdo, o esquerdo retira o direito, empurra-os com os pés para debaixo de sua cama de mola, madeira maciça antiga e escura (talvez seja Mogno), que a cada sutil movimento, range, fazendo cortar o silencio sepulcral do ambiente. Abre de cima para baixo os botões de sua camisa, retira-a, e neste movimento uma pequena pedrinha que ficou no emaranhado dos tecidos de seu bolso cai no chão. Apanha-a e a coloca ao lado de seu abajur. Levanta em direção ao mancebo de madeira (mesma cor da cama) ao lado da porta (que ainda mostra um leve balançar em sua cortina), pendura sua camisa, e começa a desabotoar o cinto e o botão da calça e retira-os (com o cinto ainda preso na calça) e coloca-os em seu devido lugar ao lado da camisa. Percebe que há uma ausência em um dos ganchos do mancebo e vê que sua toalha havia caído no chão (por um instante assustou-se com a idéia de terem entrado em seu lar... besteira, há sempre esses movimentos involuntários dos objetos). Vira-se para olhar a pequena pedra-memória na cabeceira e pensa que há silêncios que gritam em acontecimentos sutis.Volta em direção a cozinha, nos fundos é que encontra-se o banheiro. A jarra de ferro já começa a ferver. O cigarro já queimou por inteiro e também mais uma parte do cinzeiro.

(continua...)

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Camarote para quê, para quem?

Ontem tive o prazer de observar uma das cenas mais lindas que o acaso me permitiu. Trabalho no centro da cidade de São Paulo, e a caminho do metrô Sé, um pouco antes das escadas rolantes, em uma árvore bem baixa, com uma grama inexistente ao seu redor, somente uma terra que de tão seca é dura como o restante do concreto, abrigava oito pessoas, talvez moradores de rua,  e em sua copa um cobertor servia de proteção para a fina garoa que caía. Estava frio. Muito frio. Essas pessoas, todos homens, mal vestidos e mal cheirosos, todos embriagados com uma cachaça 51 que rodava de mão em mão e diminuía a cada gole que servia para esquentar o corpo (ou talvez a esperança), com seus objetos e a palma da mão, cantavam e batucavam um samba clássico da década de 90, numa empolgação e maestria de invejar percussionistas e simpatizantes. O carrinho de feira lotado de papelão e com um sujeito magro deitado sobre ele servia de reco-reco, as garrafas já vazias de corote de pinga eram raspadas no chão, batidas entre elas, existia um balde, chinelos presos entre as mãos e sendo batidos uns contra os outros, a panela suja com arroz queimado dava o agudo com o auxilio de uma colher batendo no seu fundo. Tudo ao redor desses moços e dentro daquela roda virava musica, feita com um gosto e vibração pulsante. O canto ecoava visível e penetrante para os transeuntes com seus guarda-chuvas pretos, bem vestidos e banhos tomados. Era lindo ver a alegria que emanava deles. Estava frio, eles sorriam. Não tinham nada, mas faziam. O dia cinza até então ganhava um brilho diferente para mim. A musica me arrepiou e não pude conter a emoção ao ponto dos olhos lacrimejarem. Fazia tempo que algo não batia forte assim. O Brasil não é nem de longe a imagem do "rei do camarote", o Brasil nesse momento se resumia ao samba na Praça da Sé.  Estava frio, muito frio e os moradores de rua aqueceram meu coração.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Desabafo de uma dor.

" Aqueles que me tem muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia,
a dor à minha porta e nesse dia entrou..."


   Escrevo porque as palavras servem de um consolo para aquilo que é entalado em nossas angustias. Para aquilo que temos medo de dizer, para aquilo que não sabemos se é verdade, para tudo que é incógnita. A vida é tão cheia de mistérios, por vezes tão incompreendida, mas fatalmente ela é detentora de uma coisa que chama-se: Alegria. Sem a alegria de viver, do dia a dia, das relações, é impossível sobreviver por muito tempo (vai morrendo cada dia um pouco mais do que naturalmente já acontece...) Mas o tempo é que diz quanto tempo vamos sobreviver, independente de remédios, de alegrias, de cuidados, de amores, de amizades. O tempo leva e transpassa todas nossas expectativas. O que fazer então?

                                                        ...


   Triste ver o sorriso transformar-se em lágrimas, a certeza transformar-se em um labirinto, ver a pessoa perdida nas proprias convicções. E com isso observo-me frágil, vejo-me impotente quanto ao tempo, quanto a morte, quanto as doenças. Uma coisa é ser forte, outra coisa é ser realista. E a questão é que independente dos ideais, diante da morte, pedimos ajuda para um terreno que não seja esse planetinha chamado Terra. Qualquer que seja a fé, pedimos, mesmo que seja um simples "espero que fique tudo bem" jogado aos ventos pelo suspiro.
   Quem já passou por perdas, preocupa-se, a dor é grande. E com isso, só posso dizer aos ventos e a minha própria fé que lá vou eu incomodá-los. O caminho não vai ser fácil, a vida dá sustos. Mas sua coragem, que bem sei que é muita, é bem melhor do que as lágrimas que vi cair de seu rosto. Agora, minhas lágrimas escrevendo aqui, em breve espero com muito amor que sejam de alegria em te ver sorrir novamente

Sobre o amor, apesar.

Qual seria o peso dos meus amores?
No tecido, a pele, as linhas da memoria entrecruzadas em esquinas, cantos, buracos de meu corpo.
Meu corpo sedento de sol, de calor que não queima, mas brilha, que cultiva botões, de linha e de linho.
De ninho, a minha casa-corpo abriga o rio Nilo de águas suadas, suores, choros, pus, sêmens salivas, semeadas.
Qual seria o amor que pesa mais?
Caminho desviando dos pelos do corpo, assim como pingos de chuva, brotos crescentes,
remanescentes de um primitivismo, herança perceptível.
Evocação, proteção, sedução, criação.
Reproduzir os traços, riscados infinitamente pelos ruídos do viver.
naturalmente, viver pesa
bagagem, conteúdos diários de pesos inimagináveis, talvez peso de pluma quando em toneladas.
Meus conselhos misturam-se com minhas unhas sujas de terra,
escondi um pouco de futuro em algum chão que gritava por ajuda.
Sentir o corpo, sofrer um pouco...
Qual seria?
Se fosse o amor visível, escureceria quando em pé, todos os cantos de nossos corpos
mas deitado, clareia, por deixar brilhar quem é feito de sol
Amor é para ser horizontal.
Mas pesa.
Todo tecido quando muito, pesa.
Toda ingenuidade, quando muito, ama
(sobre nós)

Soube hoje, que não carrego todo o peso do mundo
mas uma partícula do amor.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Começo de uma nova era? Orgulho de ser brasileiro?

Começo de uma nova era, orgulho de ser brasileiro?
Onde estavam escondidos os 10, 40, 100, 500 mil manifestantes? Antes que me apedrejem, sou sim a favor de qualquer manifestação, desde que seja justa. Acho justíssimo a que está acontecendo em São Paulo e em tantas outras capitais e cidades do Brasil. O que acho estranho é essa mania de querer sempre colocar um passado para trás e pensar em um futuro brilhante. O passado existe e vem como referência de que houveram manifestações muito pertinentes e que surtiram efeito, porém o Brasil de hoje necessita de outras, e precisa ainda sim acordar, pois o Brasil não acordou. Ele talvez tenha ganhado mais adeptos na luta por mudanças, e espero de coração que o grupo permaneça com toda essa coragem, garra e numero considerável de manifestantes. 
Este futuro brilhante e de mudanças que tantas mil vozes gritam em coro nas ruas, é desejo de um passado muito antigo que vem berrando e que se manifesta em apoio as mulheres, aos negros, aos gays. O Brasil, volto a dizer já estava acordado na luta por direitos, na luta por uma sociedade mais justa, na luta por querer acabar com a corrupção, melhorias na politica.
Acredito que o nojo diante de tudo que anda acontecendo na politica brasileira que não faz questão de esconder suas ações, faça com que a vontade de protestar seja maior. A vontade de protestar pelo cansaço de viver um cotidiano de transporte caótico. A vontade de gritar por mudanças onde é televisionado, estampado em capas de jornais e revistas os milhões de reais em aumentos de salários, desvios de verba, falsas campanhas, projetos acima do valor esperado que políticos esbanjam e riem na nossa cara.
A copa das confederações e copa do mundo, com os milhões de reais em reformas de estádios e afins também tiveram sua parcela na movimentação interna de querer sair para protestar, posso dizer isso por mim.
O movimento ganha cada vez mais força. A mídia não tem mais como fugir do assunto e teve que engolir as palavras e a opinião sobre os "jovens baderneiros" que "invadem a Av. Paulista". A policia, prefeito e governador tiveram a surpresa de ver uma manifestação pacífica (talvez eles desacreditassem nas pessoas, o ambiente em que eles trabalham acaba afetando-os).
Não é uma nova era, o Brasil não acordou, e as coisas não vão mudar de um dia para o outro. É preciso de muito mais luta, muitos protestos e um olhar muito mais aberto para tudo que acontece. O mesmo transporte publico que é a causa da luta de agora, é frequentado por mulheres, por homens, por crianças, por pobres, por deficientes, por ricos, por negros, por ciclistas, por idosos, por gays...vivemos numa sociedade em que tudo se mistura.
Não vejo como afastar um movimento de todas essas questões, melhorias publicas são melhorias para um coletivo, e saber lidar com o coletivo é muito difícil. Saber que sim, temos que lutar por direitos e temos que protestar, mas não deixar essa postura de cidadão "do bem" no tempo de duração de uma manifestação. A luta é contínua e cantar o hino e vestir a camiseta do Brasil é válido, mas não faz de você um brasileiro.
Vamos pra rua sim, mas levemos pra casa e adiante o desejo de mudança.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Para toda gente que sorri.

O que há de errado com as incongruências?
Seriam elas desde o dia em que nasceram dotadas do pecado?
As duvidas, como as odeio! Veja só, derradeiro processo de incapacidades nessa terra.
Quais partes escondem-se os valores que sumiram?
Soube que muitos esconderam-se embaixo de pedras, silenciosos...saem apenas na madrugada
Vestes escuras, cabeças baixas, não lhes é permitido andar como as outras gentes que tem outros valores
As certezas, como as odeio! Vejo o mundo com olhos que lacrimejam, afeta-me o fedor, afeta-me.
Sinto, tenho sentidos, atingem-me tudo que fede. Afeta-me.
A claridade da manhã não basta para iluminar a cabeça do bicho que fede.
A claridade da manhã não basta para iluminar a cabeça do bicho que fede.
Repito várias vezes a frase, enquanto soltos, valores são espancados, surrados, atingidos, descobertos
A luz do dia avistou-os.
... a luz do dia (suspiro)
As pedras, coloquem as pedras novamente, corram! vão! sumam-se em esconderijos!
Se uma coisa existe alem das duvidas e certezas no bicho homem,
é o medo.
Ser feliz é um estado de espirito inegociável. Ilusão de felicidade ter valores apedrejados.
Os caminhos são escuros na madrugada, estreitos, mas há gente que abraça.
Essa gente não fede.
...essa gente não fede. (suspiros)
Há coisas de muito errado. Há gente que não é feliz. Há quem queira sorrir.
É uma questão de abraçar-me diante da realidade.
Apertado, quando encolhido de medo, quando abraçado de amor.
Apertado quando sufocado a fala, quando escondido de dor
Apertado quando o fedor alcança, quando pedras voam.
Viver apertado, como no fundo do bolso, que cada passo desequilibra.
...(suspiros)
Esse viver não é daqui. 
Esse viver eu,
...não posso aceitar.


quinta-feira, 7 de março de 2013

Falta verdade na arte.

    Fico mais uma vez muito inquieto em observar, constatar o quanto a profissão dita Artista Plástico/Visual é deturpada por quem as faz. Não sou dono da verdade, nem poderia ser pois ela não existe, e esse não existir neste campo artístico não significa que a liberdade seja confundida com libertinagem. Ser coerente com aquilo que você produz, a meu ver, tem um casamento de muitos anos com o fato de haver uma dualidade no campo de produção e de recepção. O que você produz será repercutido, será por muitas vezes aceito e assimilado. Quando se é aceito claro. Não vou entrar em pontos de sistema, instituições, mercado, não é o que quero precisar aqui. Mas tendo essa oportunidade de mostrar seu trabalho e até viver de sua arte, o que  pretende mostrar? É de interesse querer mostrar algo que reverbere, que indague, que acuse, ou que proponha algo? Seja a proposição no campo de idéias, de repulsa ou mesmo de inovações estéticas. O que quero dizer é que há essa preocupação de querer quebrar a dita normalidade? (por mais que a palavra normal seja preconceituosa.) De sair da rotina, do já conhecido? O que o artista entende por arte, por sua profissão?
    Não vejo nada muito interessante em propor exposições apenas com um intuito de querer aparecer. Nem de uma obra puramente feita sem um estudo, sem uma verdade. É nítido quando o artista já vendeu sua verdade, ou até mesmo quando nunca a encontrou. É fato que precisamos sobreviver neste mundo, que o dinheiro é necessário, porém não significa que isso fique separado de estudos e de uma proposta que seja limpa. O fazer por modismo me incomoda. O fazer por agradar me incomoda. O fazer só pelo sucesso é triste. Não se pode negar o fato de que as pessoas pensam diferente, mas deixar de lado o pensamento de uma melhora social, e isso não significa ser engajado, é no mínimo infantil. Com a arte você pode mostrar o que muitas vezes não é possível em outras áreas profissionais, talvez mostrem mas fica ainda mais complicado de se ter o acesso ao publico. Estar dentro de uma galeria, museu requer um nome, requer um processo, uma pesquisa, que dirá se realmente sua arte é boa ou não. Não concordo com essas classificações, creio que uma arte que valha a pena não precisa estar em estabelecimentos conhecidos e nem sair em matérias em mídias já consagradas. O que falta são artistas que coloquem sua arte em primeiro lugar e deixar de colocar em um pedestal instituições e valores mercadológicos de julgamento. Sua arte será vendida de qualquer forma, correto, então que seja da maneira mais difícil. Pois fazer arte não é somente cores e formas para uma boa harmonia. Entrar em uma grande galeria ou ter um nome reconhecido, hoje em dia é praticamente uma meta. E com essa meta cria-se um ciclo vicioso de caminhar para o lado mais fácil. Agradar publico, seguir modismos, não pensar, não explicar, fazer para subir mais um degrau. O publico geral vê, compreende aquilo que é mostrado. Aquilo que se é mostrado muitas vezes poderia ser melhor. Vejo uma falta de respeito com o publico, uma falta de respeito com quem faz arte, com a classe artística pensante que ainda existe. Se estou sendo agressivo é porque me sinto ofendido com pessoas que querem fazer de uma coisa séria um passatempo.
    Agradar por agradar os parques de diversão já fazem, o bonitinho já existe por excesso no mundo, mas a arte não precisa caminhar para o bonitinho cru, bonitinho sem conteúdo,  bonitinho sem respeito. Ouço muitos artistas dizerem que o publico não entende a arte feita hoje em dia, ou que o publico é burro. Vejo como uma desculpa para não querer ele mesmo pensar. Falta hoje em dia artista que tenha a coragem de dizer que faz para agradar, que faz porque vende, porque é mais aceito. Falta hoje em dia artista dizer que não quis pensar, e isso sim seria respeito com o publico, mas não com a arte. O dito contemporâneo assusta muitas vezes, é coisa maluca, povão não entende, coisa de intelectual ... e repetir a mesmice vai ajudar no que? O mundo evolui e com ele as técnicas e pensamentos, hoje dizer que publico não entende é ofensa, é não conhecer a potencia da arte, é prepotência mesquinha. E se colocar neutro e passivo diante de uma situação dessa é corroborar para que a arte simplesmente falhe no que é seu cerne, discutir o seu tempo. Se for verdade que as pessoas não entendem é por conta da própria classe artística que ainda mantem olhos fechados, que não luta, que não ousa, que simplesmente não explica. Falar por falar todo mundo fala, fazer por fazer todos fazem. Mas o tempo passa, e será nítido que quem hoje não trata com respeito sua arte, não será pauta das conversas dos artistas respeitados de futuras gerações.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Dona do tempo

Lavadeira
lava
no vilarejo
velho
panos amarrotados
empilhados
na janela.

De pano
sujo
com suor
fica branco
olhos atentos
canto lento
faz-se
o tempo

O que se passa na cabeça da lavadeira?

"...ô ô ô passa tempo
e corre, pega menina
o tempo que foge..."

Pés molhados
gotas que caem
balde que transborda
pano que bate
forte
alça da regata laranja caída no braço

"...ô ô ô o tempo que foge..."

Bate no ar aquele grande lençol branco.

Estende panos, lençois, toalhas, roupas
velhos, novos
carcomidos pelo corpo
manchados pelo tempo

"...ô ô ô..."

Joga a agua no pé da jaqueira
coloca o balde dentro do tanque
confere o varal que dança
ajeita a alça da regata.

...

-ô menino, larga a mão desses galhos e pode ir entrando, e eu já não te falei mais de mil...


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Até quando?

Um dia quando acordar, terá valido a pena?
Um dia quando quiser, terá ainda tempo?
Um dia quando suprir, terá já terminado?
Um dia quando correr, terá caminhos livres?
Um dia quando for, terá ido?

Você é quando, quando hoje seria melhor.
Você é quando, quando amanhã já não basta
Você é quando, quando o futuro te olha.

Um dia você é.
Um dia você quando.
Um dia você não vai poder ter sido quando, pois será.

Você será o hoje quando esperava o quando.
Você será o dia quando esperava a noite.
Você será a dívida quando esperava a nota.
Você será a faca quando esperava o prato.
Você será outro quando esperava você.

Até (quando.
Até    um dia.
Até      você
Até        será.
Até           hoje).

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Esse cara sou eu


É.
Pois é.
Não é que é.
não é o que é.
é pois não é o que é.
é pois é.
é pois não é o que é.

Não, não é uma cópia da letra de titãs...mas nossas cabeças continuam sendo de dinossauro. Somos cabeçudos, primitivos. Facínoras como Clara Crocodilo.
E eu quero é todo mundo neste carnaval, eu quero é botar meu bloco na rua.
mas não pra dançar na boquinha da garrafa, no máximo limpar com a beira da camiseta a boca dela.
Garrafa, cacos. Eu canto suplico lastimo não brigo contigo, eu viro um farrapo.
Trapo, saco plástico, emplasticado, esticado, Botox.

É ano novo, pois é um novo ano.

Não é que é? Já não é o que era.
já era. Nova era.
Novidade.
Nova, 
idade.
Inovar. In-ar. Dentro. Respirar
Re-pirar. Inspiração.
Eu piro, tu piras, nós piramos.
Pirão.
não a comida, mas eles.

Quem são eles meu deus?
Enquanto não...
Eu!

Eu, narciso que acha feio o que não é espelho. Eu, prisioneiro meu. Eu, esse cara sou eu?
Romantico são lindos e pirados. Amam sem vergonha e sem juizo.
Esse cara do espelho. Esse cara, eu.

Esse cara era. Esse cara navalha. Esse canalha.
Nego dito João do Santo Silva Beleléu. E chama a polícia que eu viro uma onça.
Polícia, Polo, Poli. Prole. People.
Vida louca, vida,
Eu quero a sorte de um amor tranquilo.
Eu quero é botar meu bloco na rua,
Eu sei que vou te amar, por toda minha vida ó pátria tão gentil.
Meu Brasil brasileiro, por que és assim?
judia de mim. Me come, me cospe, me beija.
Mas esse meu amor, tem um jeito manso que é só teu
me olha nos olhos, me fere a ferida, um gosto amargo de fel.
Mas vai, vai minha tristeza e diz a ela, que sem ela não pode ser.

vai, vai...vai vai, não vou.
Vou mesmo com medo de avião.
Fui. All star azul, mala no fusquinha lá fora.
Nas curvas das estradas voadoras.
E andei pelo mundo prestando atenção em cores.

É. Pois é.
Já é.
Demorou.
Mas meu coração é vermelho e de vermelho pulsa o coração.
Meu coração, não sei por que,
mas bate
feliz
Quando vê.
Ver. Verde. Ver de perto. Ver. Ver meu ar. Vermelhar.
Velar. Versar. Verificar.
Veja, não diga que a história está perdida.
O meu Brasil, dentro do meu coração. O meu guri.
Quando eu soltar a minha voz, por favor entenda.
E se eu quiser falar com deus, por favor entenda.
E se eu quiser fumar eu fumo e se eu quiser beber eu bebo, por favor entenda.
E se um dia meu coração for consultado, por favor entenda.
E se nada do que foi será do jeito que já foi um dia, por favor entenda.
E se já é madrugada, por favor entenda.
E se o mundo não é mais como era antigamente, por favor entenda.
E se não entender, por favor entenda.
E se entenda, por favor.
E se estenda.
E sê pôr do sol, cara.
Esse cara!
sou eu.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Dois tempos

Duvidar, duplicar, dopar, dividir, despedir, demorar, demarcar.
As histórias derramam. Discos declamam, aquilo que desejamos.
Destribuimos depoimentos danificados, com o tempo.
Não estamos dispostos a depor a verdade
A verdade é que a disposição desaparece
Dependendo dos dados, dói
Dizer.
E duelar com doidos.

Dois mil e treze.

Demais, excesso. Durante o tempo do silencio é preciso filtrar, drenar.
Tudo aquilo que se escuta, que se caça, que se sabe.
Terra nova, diferente.
A nova idade acompanha a novidade
O maior risco que se corre é não saber o tempo de retornar
É saber resurgir, desafogar, sair da inércia.
Despedir pode demorar.
Duvidar pode levar a demarcação.

Meu território
Minha divida comigo
despede-se de mim.

sábado, 30 de junho de 2012

Também quero palpitar.

   Um de nossos inúmeros problemas como seres humanos é a capacidade de falar muito e agir pouco. Pela simples lógica, e para isso não é necessário ser nenhum estudioso, de que para falar você não precisa necessariamente sair da sua confortável cadeira, você só precisa abrir a boca e despejar todo o vasto conhecimento ou as vastas abobrinhas. Com todo respeito para com as abobrinhas, que por sinal são muito mais bonitas e palativas do que as coisas que costumamos ouvir por ai. Para agir, aí sim eu digo a vocês, temos um abismo de distância para com realidade que temos. Se agíssemos para com tudo que falássemos, ou o mundo já estaria o eterno paraiso, ou o completo caos. O ato de críticar sempre esteve ligado aos prazeres do ser humano, imagino aqui que a relação com qualquer outro ser humano é crítica, no sentido de elogiar ou menosprezar tais pessoas. Sua melhor amiga é sua melhor amiga porque a sua outra amiga não detêm todas as qualidades do que você supõe que deva ter para estar no status de melhor amiga. (Quanta repetição hein, este é o momento em que você continua lendo o texto ou me critica e passa para outras coisas que talvez sejam mais adeptas ao seu gosto.) Enfim, a crítica é sempre um ponto muito delicado de se discutir, muitas vezes causadora de contradições e brigas, de término de amizades, de um calor maior nas discussões, mas um ponto que acho que passou da conta do delicado e está beirando a indelicadeza é a critica como forma de manifestação para tudo. Virou uma espécie de consolo, que adjunto com as novas tecnologias virou um despejo de palavras imediatas, como uma espécie de diário aberto. O que realmente é, facebook, o antigo orkut, twitter e afins são nada mais que uma espécie de diário aberto onde colocamos nele nossas fotos, nossas musicas, frases prediletas e o perigo maior, nossas opiniões. Digo perigo maior pois diferente dos antigos diários que ficavam guardados debaixo da cama, que não saiam de dentro da mochila ou escondidos em algum lugar do quarto viraram o oposto, o segredo é revelado, não é mais guardado a sete chaves (na verdade era por um pequeno cadeado de fragilidade precária) e sim exposto aos sete ventos. Interessante essa mudança não é mesmo? gostaria de entender mais sobre psicologia para tentar entender essa relação de hoje, das pessoas se sentirem fortes o suficiente, poderosas o suficiente para retirar o ato do exclusivamente Meu, para o Universal. Para não fugir do assunto, o que venho a pensar sobre isso, é que a medida em que crescemos tecnologicamente, com informações hoje em milésimos de segundos de todos os cantos do mundo em um único aparelho celular que carregamos no bolso, fez com que as reclamações que antigamente eram feitas para os familiares no jantar ouvindo algum jornal da televisão, hoje se torna habitual a qualquer hora do dia. Há esse repasse de informações via mensagens, e-mails, twittadas, com isso a hierarquia do jornal televisivo e impresso caiu, na verdade hoje poderia ousar dizer que são os ultimos a dar as notícias. Ótimo, não precisamos mais ficar em casa para sabermos o que acontece no mundo, temos as informações em nosso bolso.
   Então, matematicamente pensando, com uma tecnologia de ponta ao nosso alcance, aumentando o número de informações passadas, com o diferencial de que podemos agora dizer o que pensamos para um campo além do sofá de casa, somado ao número de pessoas que temos como amigos em nossa pagina que vão acompanhar, supostamente, nossos dizeres, é igual a uma avalanche de críticas a todo minuto. O tempo na internet é muito precioso, 10 segundos fazem diferença, 1 minuto de espera é desesperador, ficar sem internet é um membro que nos é retirado. Essa rapidez que nos é facilitadora, também é a que nos atormenta, na verdade a que me atormenta. Quanto mais rápida a notícia for veiculada, mais pessoas vão ficar sabendo, pois 1 minuto depois você corre o risco de ser o atrasado. Muito bem, mas o que isso tem a ver com a crítica a que me referia logo no começo do texto? Tudo. Pois todos esses aspectos implicaram em um ser humano sedento por escrever, sedento por dar a sua opinião, mas convenhamos, sendo bem direto, de onde vem essa crítica? O que a pessoa sabe sobre tal assunto? Talvez eu esteja sendo crítico demais, afinal participo dessa geração "I-Pad" não é mesmo?!...Existe sim pessoas detentoras de um vasto conhecimento sobre o assunto criticado, mas são poucas e em geral dizem muito superficialmente sobre o assunto, afinal se estender demais no seu comentário ou publicação faz com que as pessoas não se interessem pelo que você escreveu, vai gastar muito tempo lendo e como eu disse, tempo é precioso nas redes sociais. Mas a grande maioria é vamos dizer aqui, leigas nos assuntos criticados, é um juizo de gosto, um achismo determinado apenas pelo que me convém e pelo que tenho como verdade e cultura. Escrevendo assim parece que eu estou apoiando a censura, estou colocando em jogo o que levamos anos para conseguir, a tão falada liberdade de expressão, negando o direito do ser humano expressar suas opiniões. Absolutamente, não. Creio que temos hoje uma ferramenta que nos é muito preciosa e que esta sendo usada de maneira banal, como se fosse um muro de lamentações virtual, um despejo de idéias, um poço no qual tudo se pode. E não é assim, a crítica quando feita tem que ser baseada em estudos ou pelo menos vivências plausíveis para que se coloque em foco a veracidade daquilo que você escreve. E mesmo que tenha todo o conhecimento e se critique de maneira correta, tem que existir um respeito para com o outro. Pois alem da critica utilizada nas redes sociais de maneira muito constante, parece que há uma necessidade de se criticar o outro. Virou uma guerra, onde cada um quer tomar como verdade aquilo que se pensa, é uma relação egoísta, colocando como errado o que outras pessoas gostam. 
   É o problema do diário, nele escrevo tudo que quero e que penso. O problema é que ficamos com um vício de escrever tudo que queremos, não importa o assunto iremos escrever sobre ele, uma pena que com isso mais da metade do conteudo colocado nas redes sociais seja banalidades do tipo, estou com sono, frio, fome, desejo, odeio tal tipo de musica, filme, time de futebol, para coisas bem delicadas e preconceituosas como odeio pobre, odeio tal etnia, odeio tal opção sexual. Eu não desejo as redes sociais somente com discussões academicistas, com páginas de conteudo rebuscado, desejaria uma rede social mais limpa, mais poética, mais musical, mais respeitosa, com muitas criticas sim, afinal é a discussão que nos leva ao conhecimento, porém críticas abertas para se ouvir o outro lado. Afinal porque essa necessidade de colocar para o mundo todo saber que eu odeio tais tipos de coisas? Daí meus queridos leitores (mãe, pelo menos você eu sei que vai ler até o final) existe o que comecei o texto, o falar é mais facil do que o agir, do que o estudar, do que a experimentação. Achar que uma coisa é melhor que a outra porque você vive tais acontecimentos, é ridiculo. Cada um é diferente em seus gostos e felicidades, em suas ações e verdades, fazer com que uma pessoa mude seus gostos ou criticar apenas pelo fato do eu não gosto do que ele gosta, beira a infantilidade, um primitivismo, época dos coronéis, ditadura, e todas as épocas onde o imperialismo reinava sobre a liberdade e a escolha individual. Termino meu texto dizendo que se as pessoas resolvessem criticar mais racionalmente e não impulsivamente, ou resolvessem respeitar mais o outro, estaríamos mais próximos de uma realidade um pouco melhor, usaríamos essa ferramenta para avançarmos em certos assuntos (como raramente acontece) ao invés de patinarmos ou afundarmos como acontece todos os dias. A frase mais utópica deste texto será a ultima, para complementar o que me referi logo no inicio do texto, se ao invés de só criticarmos colocássemos em prática o que pensamos (aqui me refiro as criticas boas) a sociedade, talvez utópica, poderia dar seus primeiros passos...afinal, falar que a fome existe e jogar comida fora é facil, e como já diria um ditado, pode encher sua piscina, mas não esvazia minha bacia.