PARTE I
As pequenas memórias que pesam
Andava na rua, seu sapato era vermelho (destoava da paleta cinzenta da cidade, e era, mesmo que não sabendo, uma gota de cortar o tédio monocromático). Chutava pedrinhas, elas quicavam no asfalto da rua, uma, duas, três vezes (na cidade as lagoas endureceram). Uma pedra que chutou bateu no poste e voltou para perto de seu sapato. Colocou a pedra em frente aos seus olhos, viu que as pedras eram pequenos pedaços de memória da cidade, eram andarilhas, viajantes, sedentárias também.
Foi então que colocou a pedra no bolso da calça, colocou uma, duas, três, sete... o bolso enchia-se de memória, encheu o bolso direito, depois o esquerdo, os bolsos traseiros, o bolso perto ao peito da camisa. Mas havia muitas pedras em sua caminhada que ele havia de pegar, e então esvaziou sua mochila e os papéis cheios de anotações tediosas voaram, as canetas rolaram, assim dando espaço para as novas memórias.
Anoitecera e seu caminhar era lentíssimo, curvado, suado. Todos seus bolsos, mochila e duas sacolas plasticas achadas pelo caminho estavam cheias de pequenas pedras...memórias.
Descia a Rua do Resquício (esse era o nome da rua onde morava) e era andar mais oito passos grandes que estava em frente ao seu prédio, de arquitetura antiga, de um amarelo já descascado, sujo, com janelas fechadas para a grande praça que havia em frente ( ele não entendia o porque das janelas fechadas se tinham aquela vista bonita da copa das arvores, suas folhas no chão...), ele morava na parte detrás do prédio, onde sua janela dava para um grande muro e uma pequena viela de paralelepípedos.
Abriu a porta de entrada do prédio (demorou no total vinte e quatro passos para chegar devido ao peso de suas memórias), o rangido da porta trabalhada em ferro fez as pombas da calçada darem pequenos vôos, atravessou o corredor até chegar na escada toda em mármore (faziam anos que não limpavam-na) olhou para cima, respirou e começou a subir degrau por degrau os três andares, eram no total nove lances de escada. No primeiro andar como de costume deu um aceno de cabeça para a senhora gorda que deixava sua porta aberta e que gostava de ficar olhando a vida dos moradores ( ela tinha o costume também de falar e puxar papo, nunca obtinha respostas pois sempre respondia suas próprias perguntas). No segundo andar observou a planta que ficava em um vaso de barro, cheio de musgo no canto do corredor com a escada, notou que precisava de água e novos cuidados (a planta não era sua, mas tinha por ela um cuidado e zelo especial, como uma mãe a saber que o filho da outra não recebe tanto amor...). Subia os ultimos lances de escada chegando em seu andar, que encontrava-se bem escuro com uma lampada queimada e outra que piscava em um amarelo bem fraco. Deixou as sacolas no chão, procurou sua chave e depois de um pequeno esforço a já enferrujada fechadura se abriu. Empurrando a porta com os joelhos e o corpo, ia dando pequenos passos para dentro de seu úmido e penumbroso apartamento e de costas, com o pé empurrou a porta que lentamente, rangendo e com dificuldade fechou-se.
Ao lado de sua porta de entrada depositou ali as sacolas, apoiou sua mochila e fez cair todas as pedras que encontravam-se em seus bolsos e até a quase imperceptível nuvem de poeira se esvair pelo ar insosso de sua moradia ele ficou ali, imóvel a observar todo esse monte de pequenas memorias rochosas. Atrás de seu corpo, a esquerda da porta de entrada, havia a suntuosa passagem para a cozinha, uma porta ovalada com um batente de mármore na cor cinza. Resolveu colocar água para ferver, sabia todos os seus passos até seguir o ritual diário...abria o armário de madeira (bege com buracos de treliça para ventilar), a jarra de ferro encontrava-se na primeira prateleira (a prateleira era encapada com jornal velho, que já estava amarelado), com a mão direita pega a jarra e com a mesma empurra a porta que bate ao mesmo tempo em que sua mão esquerda pega a caixa de fósforos que encontra-se no beiral da pia. O barulho e cheiro de gás é forte, uma chama alta surge e depois fica quase que camuflada de tão pequena e azul. A jarra já está sendo cheia pela torneira que desregulada da pressão faz alguns pingos molharem seus braços e os azulejos da parede (de cores azuis claras, contrastando com os cinzas de concreto que estão no lugar dos que um dia já passaram por ali). Tudo era feito no silencio, o único som era o fogo queimando e os sapatos vermelhos andando no chão de azulejos rosados adornados com desenhos de tramas verdes. Ele puxa uma cadeira de madeira para o seu lado, afasta o pano de prato sujo que estava em seu encosto e com a mão alcança o bule de ferro antigo no centro da mesa (fazendo o pano de crochê da mesa embolar todo), dentro dele, além de um universo de pequenos objetos inúteis, mas de grande utilidade quando necessárias, encontra-se seu maço de cigarros de filtro vermelho. Pega um e acende com o fósforo, e as fumaças do pequeno palito de madeira se apagando e do pequeno filtro de 4.700 substâncias queimando, sobem em direção ao teto. Traga pausadamente seu cigarro, solta vagarosamente a fumaça, ora pela boca, ora pelo nariz, sempre em grandes proporções (o ato de tragar era sempre acompanhado de uma nostalgia inquietante, que nunca ao certo sabe-se do quê...). Apoia seu cigarro no cinzeiro de plástico já derretido em algumas partes devido a ação de deixa-los ali, queimando enquanto se faz outras coisas...parte para seu quarto, saindo da cozinha, dando dois passos até chegar na sala, atravessa-a sem acender a luz e com a mão esquerda afasta a cortina de bolinhas de madeira que separa a sala do quarto. Segue direto para sua mesa de cabeceira, acende seu abajur preto de focal redondo e senta-se na cama (iluminado pelo foco de luz em sua direção começa outro ritual..), retira seus sapatos, o pé direito retira o esquerdo, o esquerdo retira o direito, empurra-os com os pés para debaixo de sua cama de mola, madeira maciça antiga e escura (talvez seja Mogno), que a cada sutil movimento, range, fazendo cortar o silencio sepulcral do ambiente. Abre de cima para baixo os botões de sua camisa, retira-a, e neste movimento uma pequena pedrinha que ficou no emaranhado dos tecidos de seu bolso cai no chão. Apanha-a e a coloca ao lado de seu abajur. Levanta em direção ao mancebo de madeira (mesma cor da cama) ao lado da porta (que ainda mostra um leve balançar em sua cortina), pendura sua camisa, e começa a desabotoar o cinto e o botão da calça e retira-os (com o cinto ainda preso na calça) e coloca-os em seu devido lugar ao lado da camisa. Percebe que há uma ausência em um dos ganchos do mancebo e vê que sua toalha havia caído no chão (por um instante assustou-se com a idéia de terem entrado em seu lar... besteira, há sempre esses movimentos involuntários dos objetos). Vira-se para olhar a pequena pedra-memória na cabeceira e pensa que há silêncios que gritam em acontecimentos sutis.Volta em direção a cozinha, nos fundos é que encontra-se o banheiro. A jarra de ferro já começa a ferver. O cigarro já queimou por inteiro e também mais uma parte do cinzeiro.
(continua...)