Fico mais uma vez muito inquieto em observar, constatar o quanto a profissão dita Artista Plástico/Visual é deturpada por quem as faz. Não sou dono da verdade, nem poderia ser pois ela não existe, e esse não existir neste campo artístico não significa que a liberdade seja confundida com libertinagem. Ser coerente com aquilo que você produz, a meu ver, tem um casamento de muitos anos com o fato de haver uma dualidade no campo de produção e de recepção. O que você produz será repercutido, será por muitas vezes aceito e assimilado. Quando se é aceito claro. Não vou entrar em pontos de sistema, instituições, mercado, não é o que quero precisar aqui. Mas tendo essa oportunidade de mostrar seu trabalho e até viver de sua arte, o que pretende mostrar? É de interesse querer mostrar algo que reverbere, que indague, que acuse, ou que proponha algo? Seja a proposição no campo de idéias, de repulsa ou mesmo de inovações estéticas. O que quero dizer é que há essa preocupação de querer quebrar a dita normalidade? (por mais que a palavra normal seja preconceituosa.) De sair da rotina, do já conhecido? O que o artista entende por arte, por sua profissão?
Não vejo nada muito interessante em propor exposições apenas com um intuito de querer aparecer. Nem de uma obra puramente feita sem um estudo, sem uma verdade. É nítido quando o artista já vendeu sua verdade, ou até mesmo quando nunca a encontrou. É fato que precisamos sobreviver neste mundo, que o dinheiro é necessário, porém não significa que isso fique separado de estudos e de uma proposta que seja limpa. O fazer por modismo me incomoda. O fazer por agradar me incomoda. O fazer só pelo sucesso é triste. Não se pode negar o fato de que as pessoas pensam diferente, mas deixar de lado o pensamento de uma melhora social, e isso não significa ser engajado, é no mínimo infantil. Com a arte você pode mostrar o que muitas vezes não é possível em outras áreas profissionais, talvez mostrem mas fica ainda mais complicado de se ter o acesso ao publico. Estar dentro de uma galeria, museu requer um nome, requer um processo, uma pesquisa, que dirá se realmente sua arte é boa ou não. Não concordo com essas classificações, creio que uma arte que valha a pena não precisa estar em estabelecimentos conhecidos e nem sair em matérias em mídias já consagradas. O que falta são artistas que coloquem sua arte em primeiro lugar e deixar de colocar em um pedestal instituições e valores mercadológicos de julgamento. Sua arte será vendida de qualquer forma, correto, então que seja da maneira mais difícil. Pois fazer arte não é somente cores e formas para uma boa harmonia. Entrar em uma grande galeria ou ter um nome reconhecido, hoje em dia é praticamente uma meta. E com essa meta cria-se um ciclo vicioso de caminhar para o lado mais fácil. Agradar publico, seguir modismos, não pensar, não explicar, fazer para subir mais um degrau. O publico geral vê, compreende aquilo que é mostrado. Aquilo que se é mostrado muitas vezes poderia ser melhor. Vejo uma falta de respeito com o publico, uma falta de respeito com quem faz arte, com a classe artística pensante que ainda existe. Se estou sendo agressivo é porque me sinto ofendido com pessoas que querem fazer de uma coisa séria um passatempo.
Agradar por agradar os parques de diversão já fazem, o bonitinho já existe por excesso no mundo, mas a arte não precisa caminhar para o bonitinho cru, bonitinho sem conteúdo, bonitinho sem respeito. Ouço muitos artistas dizerem que o publico não entende a arte feita hoje em dia, ou que o publico é burro. Vejo como uma desculpa para não querer ele mesmo pensar. Falta hoje em dia artista que tenha a coragem de dizer que faz para agradar, que faz porque vende, porque é mais aceito. Falta hoje em dia artista dizer que não quis pensar, e isso sim seria respeito com o publico, mas não com a arte. O dito contemporâneo assusta muitas vezes, é coisa maluca, povão não entende, coisa de intelectual ... e repetir a mesmice vai ajudar no que? O mundo evolui e com ele as técnicas e pensamentos, hoje dizer que publico não entende é ofensa, é não conhecer a potencia da arte, é prepotência mesquinha. E se colocar neutro e passivo diante de uma situação dessa é corroborar para que a arte simplesmente falhe no que é seu cerne, discutir o seu tempo. Se for verdade que as pessoas não entendem é por conta da própria classe artística que ainda mantem olhos fechados, que não luta, que não ousa, que simplesmente não explica. Falar por falar todo mundo fala, fazer por fazer todos fazem. Mas o tempo passa, e será nítido que quem hoje não trata com respeito sua arte, não será pauta das conversas dos artistas respeitados de futuras gerações.